Segurança Eletrônica 4.0 mostra que IA e dados não são opcionais no Brasil - NetSeg

Segurança Eletrônica 4.0 mostra que IA e dados não são opcionais no Brasil

Dicas | 2026-02-13

Por Lucas Cinelli, CEO e cofundador da Octos e especialista em inovação na portaria remota, videomonitoramento inteligente e sistemas de alarmes.

O mercado de segurança eletrônica no Brasil vive um momento de crescimento sustentado, mas, mais do que isso, atravessa uma transformação estrutural. O avanço da criminalidade urbana, a expansão acelerada do varejo e da logística e a maior exposição de ativos físicos e digitais tornaram a segurança um tema estratégico e não apenas um centro de custo. Ignorar essa mudança é assumir riscos que hoje vão muito além de perdas materiais.

Por isso, o modelo tradicional de segurança, fortemente dependente da vigilância humana contínua e de respostas reativas, mostra-se cada vez mais insuficiente. Não por falta de esforço das equipes, mas porque a escala e a complexidade dos ambientes monitorados ultrapassaram a capacidade humana de análise em tempo real. Operações que ainda dependem exclusivamente de operadores observando dezenas de telas estão, na prática, operando no limite do erro.

É nesse cenário que a chamada Segurança Eletrônica 4.0 se consolida, impulsionada pela integração entre Inteligência Artificial (IA), Internet das Coisas (IoT), computação em nuvem e análise avançada de dados. A principal ruptura não está apenas na automação, mas na mudança de lógica, em que sair de um modelo reativo para operações preditivas, orientadas por dados e capazes de antecipar riscos antes que eles se materializem.

Uma das tendências mais relevantes desse movimento é a expansão do monitoramento colaborativo. Ao permitir o compartilhamento estruturado de informações entre diferentes operações, empresas e regiões, esse modelo amplia significativamente a capacidade de prevenção e resposta a incidentes. Iniciativas como o Smart Sampa, na capital paulista, e a Muralha Paulista, em âmbito estadual, mostram que a cooperação entre diferentes atores pode gerar ganhos reais de cobertura, velocidade de resposta e inteligência operacional.

No entanto, é fundamental destacar que colaboração sem governança é um risco, pois o compartilhamento de dados sensíveis exige marcos regulatórios claros, controles rigorosos de acesso e total transparência sobre o uso das informações. Sem isso, projetos bem-intencionados podem abrir espaço para violações de privacidade, uso indevido de imagens e decisões automatizadas pouco auditáveis, temas que já estão no radar de órgãos reguladores e da sociedade.

Além disso, a portaria remota virou uma realidade operacional. Segundo pesquisa da Octos, startup de IA em segurança eletrônica, cerca de 60% das empresas de segurança planejam investir nessa modalidade, impulsionadas pela redução de custos, maior controle de acessos e escalabilidade. Paralelamente, a adoção de IA no videomonitoramento e nas centrais de operação vem reduzindo drasticamente falsos alarmes e permitindo que operadores foquem apenas em eventos realmente críticos.

Dados da Associação Brasileira das Empresas de Sistemas Eletrônicos de Segurança (Abese) reforçam esse movimento: a adoção de soluções com IA saltou de 54% para mais de 64% em apenas um ano. A Octos também observa que cerca de 84% das empresas do setor planejam migrar suas integrações para a nuvem, enquanto a demanda por IA aplicada ao videomonitoramento cresce cerca de 20% ao ano. 

Apesar disso, o setor enfrenta um desafio importante: a banalização do termo “inteligência artificial”. Muitos clientes finais demandam IA sem compreender suas reais capacidades, limitações e riscos. Esse descompasso, somado à atuação de vendedores despreparados, frequentemente leva decisões baseadas apenas em preço, comprometendo a eficiência das operações e, em alguns casos, criando falsas expectativas sobre segurança total.

Portanto, a consolidação da Segurança Eletrônica 4.0 exige tecnologia robusta, mas sobretudo governança, capacitação técnica e responsabilidade no uso dos dados e algoritmos. Empresas que insistirem em decisões simplistas ou em modismos tecnológicos tendem a operar mais expostas, menos eficientes e vulneráveis a riscos legais e reputacionais. Já aquelas que compreenderem a segurança como uma estratégia integrada, e não como um item comum, estarão mais bem preparadas para um mercado que deixou de ser opcional e passou a ser essencial para a sociedade.

*Lucas Cinelli é mestre e doutorando em processamento de vídeo e imagem. Atua há mais de uma década em projetos de pesquisa e desenvolvimento voltados à visão computacional e segurança. Como CEO e cofundador da Octos (startup de IA em segurança eletrônica), integra IA em milhares de câmeras e já contabiliza mais de 100 crimes evitados, além de redução de cerca de 70% nos falsos alarmes em operações reais.