Da expectativa à realidade: as três inovações que definirão a segurança eletrônica em 2026 - NetSeg

Da expectativa à realidade: as três inovações que definirão a segurança eletrônica em 2026

Tecnologia | 2026-02-19

Andrew Burnett, Diretor de Tecnologia da Milestone Systems 

Até 2026, a indústria de segurança deixará para trás a fase experimental e passará a adotar tecnologias que antes estavam restritas aos laboratórios. A novidade está na IA, mas não como muitos a conhecem por meio dos grandes modelos de linguagem (LLMs), e sim como IA Agêntica: sistemas capazes de atuar de forma autônoma nos fluxos operacionais, juntamente com os Gêmeos Digitais e os wearables com Realidade Aumentada (AR) — tendências que apontam para ecossistemas mais inteligentes, interconectados e imersivos. 

A seguir, analisamos essas tendências que irão moldar o rumo da segurança eletrônica em 2026, representando a transição da experimentação para aplicações concretas que já começam a transformar a operação diária do setor, com impactos diretos na eficiência, na rastreabilidade e na tomada de decisões. 

  1. IA Agêntica — da exploração aos fluxos operacionais  

A IA Agêntica, inicialmente reconhecida por suas capacidades em áreas como a geração de código, está agora se expandindo além da programação para orquestrar processos operacionais nos sistemas de segurança. 

A mudança para 2026 está em sair das demonstrações e avançar para agentes orientados a tarefas e integrados diretamente às operações. Em vez de provas de conceito isoladas, vemos agentes que coordenam ações entre múltiplos sistemas — processando vídeo, correlacionando registros de controle de acesso, detectando desvios e acionando medidas de acompanhamento — sem que um operador humano precise alternar entre diferentes interfaces. 

Exemplos práticos incluem agentes autônomos de investigação que não apenas recebem um alerta, mas também coletam os últimos 30 minutos de evidências multimodais (vídeo, registros de acesso, telemetria de sensores) e ainda propõem e iniciam uma ação imediata de mitigação para aprovação do operador. O valor é duplo: velocidade, ao reduzir o tempo médio para obtenção de informações, e eficiência, ao liberar os operadores para se concentrarem na tomada de decisões, e não na coleta de dados. 

Esse movimento também se reflete nos padrões de investimento na região. De acordo com um estudo das Nações Unidas, a América Latina e o Caribe apresentam um dinamismo crescente na adoção de IA, concentrando 14% das visitas globais a soluções de inteligência artificial, o que indica uma adoção acima do esperado. 

Mais do que perguntar o que a IA Agêntica pode fazer, o desafio é identificar os fluxos de segurança repetitivos — como triagem de incidentes, otimização de rondas ou preparação de pacotes de evidências — e, em seguida, medir o desempenho dos agentes com base em KPIs bem definidos. Em 2026, liderarão as plataformas com APIs abertas, seguras e auditáveis, bem como os fornecedores capazes de integrá-las aos procedimentos operacionais de ponta a ponta. 

2. Gêmeos Digitais — do modelamento às decisões críticas em segurança 

Os gêmeos digitais — modelos virtuais altamente sofisticados que permanecem sincronizados com sistemas do mundo real — também estão alcançando um nível de verdadeira aplicabilidade. Durante anos, setores como manufatura e logística os utilizaram para monitorar ativos e ambientes; o diferencial agora é o nível de granularidade e escala possível no contexto da segurança. 

A NVIDIA, por exemplo, utiliza gêmeos digitais em data centers, integrando câmeras, alarmes de incêndio, controle de acesso e sensores ambientais para criar uma visão unificada e em tempo real das operações. Em vez de réplicas estáticas, trata-se de ambientes interativos nos quais é possível testar e otimizar o comportamento do sistema de forma segura. O valor vai além da visualização e da simulação, permitindo que as organizações monitorem, otimizem e gerenciem ativamente o estado desejado de múltiplos subsistemas em tempo real. 

Imagine executar um simulado virtual de incêndio que demonstre o fluxo de pessoas caso um corredor seja bloqueado, ou simular estratégias de confinamento para manter rotas de evacuação enquanto uma ameaça é contida. Esses cenários não são apenas exercícios teóricos: eles influenciam diretamente os procedimentos operacionais padrão (SOPs), as decisões de projeto e a distribuição de recursos de processamento na borda. Para infraestruturas complexas — como aeroportos, portos e edifícios multi-inquilinos — um gêmeo digital unificado reduz desvios de configuração, acelera análises forenses e viabiliza a manutenção preditiva de dispositivos críticos. 

Olhando para o futuro, a adoção ampla dos gêmeos digitais está posicionada para transformar a forma como a indústria de segurança aborda a gestão de riscos e o planejamento operacional. Com uma visão unificada e em tempo real de ambientes complexos, eles permitem uma tomada de decisão proativa, ajudando as equipes de segurança a antecipar ameaças, otimizar a alocação de recursos e aprimorar continuamente os procedimentos padrão, com investimentos em capacitação, infraestrutura e tecnologia orientados por resultados simulados, e não apenas por eventos passados. 

3. De dispositivos a catalisadores: wearables + AR em ação 

Após uma trajetória turbulenta, a Realidade Aumentada (AR) e os wearables viverão, em 2026, um novo momento impulsionado pela IA, que os transforma de simples dispositivos de captura em verdadeiros companheiros inteligentes. A AR deixa de ser apenas uma sobreposição visual para se tornar um guia contextual em tempo real, enquanto as ferramentas de linha de frente evoluem de passivas para proativas: veem, ouvem e interpretam o ambiente, oferecendo suporte imediato por meio de interfaces de voz, visuais ou híbridas. 

Na América Latina, estima-se que o mercado de Realidade Aumentada cresça a uma taxa composta anual de 15,6% entre 2025 e 2034, alcançando um valor de USD 5,17 bilhões em 2034. Atualmente, software e serviços representam a maior parte das receitas de AR, refletindo o uso crescente dessa tecnologia em aplicações operacionais como treinamento, assistência remota, simulação e suporte à decisão em tempo real. 

Um aspecto crucial é que esses sistemas compreendem linguagem natural. Um vigilante pode perguntar “quando esta área foi patrulhada pela última vez?” e receber uma resposta objetiva, respaldada por evidências, ou solicitar que o sistema reproduza a última aproximação suspeita e a marque para revisão posterior. Assim, os wearables se tornam ferramentas ativas de apoio à decisão, ampliando significativamente a consciência situacional. 

Embora a adoção em larga escala ainda possa levar alguns anos, a trajetória é clara. O futuro do trabalho em segurança será cada vez mais wearable — por meio de óculos inteligentes, fones de ouvido ou dispositivos vestíveis no pulso — e será impulsionado por sistemas conversacionais inteligentes que fornecem informações e suporte à decisão em tempo real. 

Integrar, simular, ampliar 

Ao longo dessas tendências, a inteligência artificial atua como o habilitador que transforma tecnologias antes superestimadas em ferramentas verdadeiramente úteis no nível operacional. 

Para CISOs, gestores de instalações e líderes de operações, o plano de ação para 2026 é claro: integrar APIs abertas e auditáveis, aproveitar gêmeos digitais alinhados aos SOPs e testar wearables sempre que acelerarem a tomada de decisões. O sucesso será medido por KPIs operacionais — como tempo de resposta, redução de falsos positivos e confiança na decisão — e não pela novidade tecnológica. 

Após anos de entusiasmo e experimentação, entramos em uma nova era em que as tecnologias emergentes deixam de parecer protótipos e passam a atuar como aliadas. Para a América Latina, o desafio será combinar essas inovações com a necessidade de parcerias com integradores locais. O sucesso dependerá da mensuração de resultados operacionais concretos e da construção de ecossistemas de segurança que respondam às particularidades da região.